Urbano

Uma criança descalça, no meio da rua, anda entre os carros.

palafitas.

uma velha puxa uma vaca, sozinha, por uma corda.

o homem pega uma galinha.

crianças voltando da escola se equilibram em meio a uma vala de esgoto.

motos e triciclos e humanos se confundem no chão lameado, a fiação exposta prestes a cair a qualquer momento.

a pobreza vive da riqueza de cores nos outdoors de lojas e propagandas eleitorais e

um menino, de uns 10, olha um anúncio de pratos de comida, e corre.

a cidade é um único todo vivo.

a noção de preciosidade da vida se altera quando tudo que se tem é pó, porque dele a gente veio e apesar da fumaça

a vida surge

em meio ao caos

todos

os

dias.

plantas entre vãos do asfalto poluído,

rios dentro da menina dos olhos da velha que olha pra rua,

e espera.

cada pessoa é um universo que nos tange como o soluço de choro contido da moça bonita, que

lenta

     a

        mente

se torna a velha-que-espera.

porque a cidade é um mundo interligado de onde não se pode fugir nem entrar:

a pobreza vive das cores dos humanos, e os únicos a diferenciar rosa de amarelo

somos

nós.

(na garganta).

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Coragem

Me vesti para a ausência de você.

Me sinto nua, mas embuto de coragem minha carcaça com botas e jeans rasgado. Ela sussura bem clichê:

                                        a  t  i  t  u  d  e  .

Penso demais.

Sinto.

Você não consegue esconder tudo de mim.

Será que você sente a minha falta? Que pensa em mim enquanto está lá,

                                       nos lugares em que eu não estou,

ou esquece e eu sou pra você somente de vez em quando?

Escolhi preto, não (só) de luto, mas preto-seu-cabelo-tão-forte.

Um rito de libertação, um culto.

Suas meias.

Fico à espera do gran finale, o momento em que você teria um brainstorm e então viria me buscar.

As ruas molhadas de chuva, as luzes, a cadeira vazia na minha frente, a espuma da cerveja.

O vazio dos bares,

Os olhares e risos falsos e secos, sem graça, simples(mente) porque estão fora de mim.

Só o que encaixa dentro da gente pode ser (verdade).

sentindo mesmo estou é falta,

                                                     estou saudade

e enquanto você não vem eu esquento a cerveja só pra rir sozinha enquanto preencho teu vazio com minha própria respiração.

Porque a saudade

                   é uma dose homeopática

                                                    de amor.

nova ortografia

a sua eu não sei,

mas a minha idéia tem acento

ou melhor, tem assento: ela vem, passa,

e só fica quando eu a capturo com o olhar e a transformo em pensamento;

e idéia que vira pensamento

deixa de ser o que seria,

ou seja,

deixa de ser

                              i-de-ia e,

                                          não mais no se-ria,

toma graça e se assenta.

com acento, é claro.

Nudez

você me deixou com os olhos molhados a noite toda,

a gente fica procurando no outro as pequenas palavras que escaparam da nossa própria boca,

tento crer que foram parar na sua e então amanhã eu volto pra buscar,

a gente marca um encontro casual

E

quando eu entrar pela porta

você já vai ter deixado separado todas as palavras que eu esqueci com você.

com a pressa dos calmos,

me devolva

uma a uma

as esquecidas

              e as renegadas

pra que quando eu sair, pela ultima vez, você saiba ficar

(sobre)vivente

No seu

Nu

Ortográfico.