o olho azul na morena é tipo entrar nas soluções dos universos do mundo, arabella with a seventy’s head você apareceu na estação num mix de todas as pessoas e feições que estavam ali a circular na música e na sinestesia das sensações daquilo que vai rápido pela cidade dura e fria de concreto que nos engole,

eu sinto que estou correndo contra o tempo pra fazer tudo que eu quero antes de aparecerem aquelas rugas nas dobras do meu pescoço e

o aeroporto é uma despedida concreta, quero jogar frases soltas assim no papel plantas são ETs que crescem legalmente nos nossos quintais a nos observar e os lugares são memórias embaçadas que ficam no tempo e viram do dia pra noite e aí quando você passa naquele poste onde ela estava encostada na noite anterior tudo parece ter outro sentido e se você tentar se encostar pra procurar aquilo de você que ficou lá

cê só encontra você,

o poste e a doçura da saudade,

praonde é que você vai assim?, andando rápido-de-olhar-distante e não quero terminar estes instantes pois sei que daqui em diante nunca mais vou te ver,

minhas palavras nos eternizam no tempo e portanto não vou termi

Crescente

Tem uma coisa que cresce em mim exponencialmente. Essa coisa vem de dentro do dentro e vai subindo, arranhando minhas entranhas e rasgando tudo que há por ali. Não sei quando foi que essa coisa que cresce em mim se instalou no meu dentro, mas posso citar fatos pontuais que me lembram de que, nestes momentos, ela já existia em mim. Essa coisa estranha que cresce em mim sobe e quer sair pelos meus dedos, quer sair pelo meu olhar, quer me fazer gritar bem alto. Ela me dá a histeria da fuga, me faz olhar as coisas e o mundo com um olhar diferente, deslocado, descolado como quem finge ainda fazer parte disto. Esta coisa que cresce em mim às vezes sai. E quando ela sai, eu respiro. Eu sinto que estou vivendo apenas quando essa coisa acorda e começa a desorganizar toda a ordem das minhas vísceras. Tê-las bagunçadas é como ter minha vida jogada  à deriva, jogada à mercê de dias que eu espero que sejam uma coisa mas que torço para que sejam outra.  Neste meu balançar desejoso, espero dias que atendam a necessidade dessa coisa estranha que cresce em mim, e que também criem mais coisas estranhas a crescerem. No fim, pretendo estar cheia, coberta, voluptuosa com coisas que cresceram em mim, vontades, desejos, medos e agonias que cresceram e não quiseram jamais sair. Que eu morra como uma árvore, cheia de ramos, cheia de folhas, cheia de flores, cheia de marcas vindas de diferentes ares e com raízes profundas em vários lugares. Que eu morra como o mar, sabendo aceitar as ondas. Que eu morra sendo, por fim, eu mesma apenas uma própria coisa que cresce em mim, uma coisa inominável, uma coisa não-amor, um certo je-ne-sais-quoi que me faça sentir tão viva, tão viva, que de fato eu jamais morrerei. Porque as coisas que crescem em mim são fruto de meios, fruto de realidades, e na relação de mão-dupla inerente a todo tipo de relação terrestre, serão também influentes sobre estas suas raízes. Assim, não morrerei, e não precisarei mais me importar com coisas que me façam esquecer de meu fado final. Poderei respirar. A coisa que cresce em mim não tem nome. A coisa que cresce em mim me faz gritar. A coisa que cresce em mim sou eu.  

JARDIM

Eu acabei de te ver. Você tava ali na velha andando lentamente, toda curvada, voltando do jardim com uma bacia de alumínio como quem acabara de aguar todas as plantas, inclusive as margaridas, ah, as margaridas, onde crescem as flores brancas sobre as cinzas do falecido. Foram felizes. Não como nos contos de fadas, que isso ela já sabia faz tempo: conto. De quem conta. Estações. Te vi ali. Te vi nela. Te vi na velocidade, na luz, te senti. Eu acabei de te ver, como se não houvesse tempo

exceto

o das rugas da velha

das nossas rugas

(da própria velha-que-espera dentro de cada um).

Amor é duas esquinas bem rápido se tocando, e então, o silêncio no meio da multidão. Depois disso é a morte o vazio que preenche o olho da gente quando não dá mais pra ver quem se foi, no lugar onde não cabem palavras.

somos

bolores

que fogem da terra e quando chega a hora de voltar pra ela o corpo incha

a pálpebra murcha

e o olho chora

pra poder aguar a terra onde vamos nos

replantar.