fotografia

fotografia pode ser um par de olhos.

uma flor.

o concreto.

ou qualquer coisa porque,

 

no fundo, ela acontece naquele flash de quando você olha pra algo e parece ser a primeira vez que tá vendo aquilo,

 

mesmo já tendo visto por até, quem sabe,

 

toda uma vida.

 

é a eternização do olhar sobre uma emoção tão pequenina,

 

tão leve,

 

naquele instante exato da dobradura da manta da gravidade nessa coisa tão infinitesimal:

 

o tempo sendo marcado por tanta delicadeza de sopro vital.

 

(e deve ser por isso então que os técnicos chamam de

 

fotografia

           instantânea).

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os peixes no aquário

nada(m).

e trazem em mim sempre aquela mesma sensação nostálgica infantil da

ração de farelinho,

as tripas na barriga transparente,

a existência

os olhos

o barulho da bombinha

 

a bombear, e nada(m) mais.

 

somos

   todos

      peixes num aquário,

 

enclausurados e sendo olhados no nosso mundo por algo maior,

tentando reconhecer alguma coisa lá fora que consiga se encaixar dentro da gente com o

 

nosso olho esbugalhado,

sempre atentos

nadando de um lado pro outro

até onde a

m e m ó r i a

aguentar.

 

será que eles lembram do mar?

 

da sua existência maior

do nosso rastro estelar

 

e quem sabe

de vez em quando

o resquício de mar de dentro sobe

 

bem devagar

 

e dá vontade então de se transbordar em

 

lágrimas

          de

           (sal)dade.