azul de (a)mar

tem dia que a gente acorda azul.

 

com vontade de ouvir música lenta pra tentar acalmar a alma,

 

o sorriso que foge da gente porque quando a alma fica azul é porque a gente conseguiu entender várias coisas da vida.

 

e é claro que isso deixa triste,

 

depois disso inventamos de chamar as coisas de amor e queremos sentir que somos únicos e especiais.

 

pois saiba, meu amor, que não sou tua muito menos amo.

 

nos iludimos do contrário pra preencher um pouco todo esse void que carregamos,

 

mas na verdade tem tanta coisa por aí que a gente inventa nome bonito pra no fundo sermos apenas existência igual uma grama.

 

o sorriso é um treco que vem das coisas que não sabemos explicar,

 

tipo piada, o humor surge da quebra de sentido e lógica das coisas e quando a gente não sabe, só pode é rir pra disfarçar.

 

outra coisa que não explica mas dá nome é sentimento,

 

aquele quando se olha prum alguém e se sente tanta coisa a percorrer nas veias que já não se sabe mais o que é aquilo e daí é só

rir

nova(mente).

 

sorrisos são azuis.

 

E nessas horas em que o universo do Dentro vira mar em tempestade, não resta nada a fazer além de aprender a nadar.

 

nessa vida de loucos a gente tem que saber ser sereia:

 

se

ser,

serei

      ar.

e rir

(a esta morna rebeldia).

 

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apartamento

sons vindo do vizinho.

 

raios de sol batendo nos móveis.

 

uma leve brisa entrando pela sacada.

 

precisamos aprender a saborear de leve as cores que invadem cada canto dos apartamentos apertados onde vivemos,

 

empilhados uns sob os outros feitos corpos em gavetas de cemitério mas

 

(in)felizmente a gente ainda não tem morte não,

 

temos é apartamentos e neles nos aconchegamos após dias longos de trabalho,

 

a gente chega cansado e liga a tv dizendo que hoje o dia foi puxado e merecemos uma cervejinha.

 

cada

canto

 

de uma dessas caixinhas de fósforo guarda um segredo.

 

o espelho que angula exatamente para se ver do outro lado da casa,

o tapete macio do banheiro que te recebe quente e acalorado do banho,

a espuma da banheira numa sensação quase-que-infantil que parece estar saindo de uma cena de filme onde

 

os protagonistas

somos

nós.

 

o formato da luz amarelada do amanhecer atravessando as cortinas,

 

a vista preto e branco dos prédios ao lado, tão perfeita e detalhada que parece que deus inventou hoje de querer bancar o realista e desenhou aquilo pra gente ficar olhando e pensando na própria vida.

 

perdemos a nossa mente ao encarar essa vastidão,

 

somos engolidos pela maestria do grande e é por isso que precisamos aprender a saber apreciar,

 

bem devagar,

 

os pequenos detalhes do lugar onde vivemos.

 

tem gente que chamaria isso de carpe diem,

 

felicidade, whatever.

 

eu não gosto de rotular não.

 

o rótulo tira todo o gosto do mistério e da criatividade da gente, e se for pra existir rotulado

 

pode deixar que eu espero o momento de me tirarem dessa caixinha de agora pra me colocarem naquela outra onde parentes me trarão flores no II de novembro,

 

procurando meu nome em meio a tantas etiquetas de quem um dia existiu

 

em pedaços pequenos da terra

 

que um dia chamamos de lar.

 

dia dos namorados

caminhamos em shoppings de mãos dadas com pessoas que acreditamos ser predestinadas pra gente pra alguma coisa.

 

o problema é que pra essa alguma coisa a gente costuma dar uma atribuição positiva,

 

a gente dá uma sensação de tilintar de dedos nas costas e

 

construímos uma idealização doentia que inventa um modo de apego e dependência em relacionamentos quase que vinculado a uma linha de produção,

 

vão caindo broken hearts da esteira da aleatoriedade dos eventos da vida,

 

lenta

     a

     mente,

 

um a um.

 

eu tenho vontade de olhar fundo no olho das pessoas e agradecer pela leve brisa que cada uma traz naquele instante da minha vida, afinal no fundo nós apenas

 

somos

instantes.

 

nos ensinam a amar de um jeito que dói.

 

intoxicam um dos sentimentos mais puros que surgem no peito da gente com julgamentos, moralizações, medos e dores,

 

e eu fico pensando quem é que foi que inventou essa história de sofrer quando se sente uma coisa tão boa ardendo no peito,

 

fazendo sentir vivo quem antes vivia na inércia comparável à de uma almofada.

 

vivemos em uma sociedade

 

                                  love-a-holic

 

em que os loves se confundem com os holes e

 

da maquiagem fazemos crescer risos que ecoam pelos muros de cidades vazias.

 

mas acho que,

no fundo,

 

o vazio é sempre nosso anyway.