chronos

andava na rua e esbarrei na velha. esbarrei não de físico,

 

foi alma.

 

ela andava lento, sempre ajudada pela por-mim-suposta filha, segurando seu braço com firmeza e carinho ao mesmo tempo.

 

dava pra ver escrito nos dedos da filha as marcas que a própria velha fez um dia, quando a ensinou ainda bebêzinha a andar e pegava no seu braço assim de leve, do mesmo jeito como ela mesma fazia agora.

 

inverteram os papéis.

 

a velha tinha a voz rouca, uma voz cheia de rugas e marcas que quando ecoava no ar dava pra perceber que já tinha dançado em muito ar por aí.

 

eu fico imaginando se quando os velhos pensam nas pessoas amadas, eles pensam no enrugado que dorme na cama do seu lado há 37 anos ou se imaginam a pessoa do jeito que ela era quando eram mais novos.

 

como serão os sonhos dos velhos?

 

se prendem no passado, ou será que tentam ancorar alguma coisa de futuro ?

 

será que sonho de velho respira que nem os nossos?

 

olho pra minha pele e ela é macia. lisa. não tem ruga nem marca sem ser numa gaiolinha dentro do meu peito que segura um treco selvagem que não sei botar nome não.

 

cor(ação) da gente é sempre wild, passando e viajando por meio de florestas úmidas dentro do peito dos outros.

 

a vida é essa viagem toda.

 

meus movimentos são rápidos, ágeis, bate vento no meu cabelo e ele voa. tudo em mim é leve e agitado,

 

mas não na velha. o tempo nela já passou tanto que foi tirando de dentro dela os minutos,

 

e é por isso que os velhos tem essa lentidão toda.

 

porque quando a gente nasce somos cheios de minutos guardados dentro da gente, um estoque de tempo que conforme vai correndo vai desgastando nossas células e, quando a gente vê,

 

tá andando lento por aí na rua.

talvez até pensando lento.

 

e daí devagarzinho as coisas internas vão diminuindo, bem de leve,

 

os minutos passando de dentro da gente de volta pra terra até chegar a hora de nascer de novo,

 

ser plantado na terra
e virar então flor marcada no chronos da história de tudo aquilo que a gente não consegue entender direito.

tradicional

Você viu aquele restaurante novo que abriu no centro? Tem área kids. É ótimo mesmo né, a gente consegue conversar em paz. Desce daí, menino, senão a mamãe fica triste hein? Nossa, essa casa depois que pintaram ficou muito estranha, preferia aquele verde de antes. O povo não tem noção né. Aoba, tudo bão seu Jorge? Coitado, esse aí sofre com a esposa. Psicose, sei lá, sei que é doidinha a mulher dele. Come mesmo, menina, aproveita que você é jovem, que quando fica velho só cresce pros lados. Você pode. Você tá muito magra. Você andou engordando, né? Esse mercadinho do japonês expandiu que é uma beleza, hoje em dia tem de tudo, compensa às vezes mais que mercado. Graças a Deus. E esse tempo hein? Será que chove? Tava precisando hein, dar uma abaixada na poeira. Semana passada fez um frio desgraçado mas agora tá fresquinho gostoso. Bom pra dormir. Eita que hoje foi puxado hein, lavei todo o quintal, tô acabado. Exausto. Nossa, são sete horas já? É, benzinho, o jeito é sentar ver TV e depois ir dormir hein, senão… aproveitar que amanhã a gente pode dormir mais um pouquinho. A gente trabalha a semana inteira, merece descansar um pouco. Pega uma cervejinha pra mim. Vou aproveitar o domingão pra passar umas roupas. Depois tem que ainda ir na casa da minha mãe e quando viu já acabou o domingo também. Porque quando eu aposentar, nossa, não vejo a hora, quero deitar, ler meus livros, viajar. Ficar na paz, sabe? Nossa, esse grupo do whats aqui não pára. Só tontice, cada vídeo besta. Cê viu esse aqui do gatinho? kkkkk um sarro. Ah, e cê viu que a Renata tá namorando um moço novo agora? Vi no feice. É, é isso aí né, o João ficou pra trás… faz parte. Logo deve casar essa aí também. Dia desses a Juliana casou, é isso aí a vida mesmo. E a gente ficando pra trás. Normal. Só não me apareça aqui com namorado desses chocolate hein, kkkkk… é brincadeira menina, não me olha assim. Vai saber hein, as branquinhas assim que nem você costumam gostar. Pra que me xingar assim? Você não tem senso de humor. Fazia tempo que eu não te via, você quase nunca volta pra cá né? É que você é mulher do mundo. Quer dizer, nossa, desculpa, não foi isso que eu quis dizer, só que você é do mundo. Imagina mesmo, credo. Fiz um bolinho. Quer um café? E que que é o fim desse calor hein!? Só por Deus mesmo. Ai ai, só canseira né? E esse governo? Agora diz que vai melhorar as coisas. Mas o tomate no mercado tá um absurdo ainda, não sei o que é o fim disso. Mas tá bom, a gente vive nessa correria danada mas graças a Deus nunca falta nada pra gente. A vida é assim mesmo, tem que trabalhar duro, não tem jeito. Mas e aí hein, será que chove?