happenstance

cê me cruzou o olhar e depois olhou pro carro que vinha.

 

o carro passou por entre a gente que nem trem, vagando tão rápido que a imagem até embaçava.

 

eu nessa hora já não vi mais nem carro, nem rua, muito menos cruzamento de nenhum deles.

 

só conseguia ver teu olhar.

 

tua blusa semi-amarrada na cintura, toda despojada, tuas mãos de longe.

 

às vezes me acho meio doida por me apaixonar por pessoas com quem cruzo assim na rua, de repente.

 

(no Fundo, sinto que doido é quem não se deixa apaixonar).

 

acontece que quando ficou verde cê veio, e eu fui, em cima daquelas listras brancas tão estranhas e deu pra perceber que você ficou me olhando também.

 

afinal, o que chama atenção é o recíproco, e não uma imagem sozinha no espelho.

 

depois fiquei te vendo de longe virar a esquina, pensando se cê mora aqui perto também, se tava indo naquele sebo que tem depois da farmácia, se na verdade nem existe e eu só te inventei na minha mente pra me distrair momentaneamente dos meus devaneios diários.

 

sei lá.

 

sei é que depois disso ficou em mim um vazio,

 

cheio da certeza de que eu nunca mais vou te ver.

 

fiquei pensando em todas as realidades paralelas e alternativas dessa vida.

 

porque quando cê virou a esquina morreram todas as amizades em comum que a gente ia ter. morreram todas as festas em que iríamos. desapareceram todas as músicas que escutaríamos juntos no carro. enrugaram todos os pedaços de pele que tocaríamos um no outro. murcharam todos os sorrisos que daríamos juntos num dia de sol em Itaquaquecetuba visitando sua tia-avó doente que tem 7 gatos no quintal do fundo.

 

mas não nos cabe lamentar, não. acho que só nos resta aceitar que as esquinas são assim, pré-determinadas por outrens, e tal.

 

Bom,

isso é o que uma parte de mim diz, mas pra ser sincera eu não gosto dessa parte não.

 

gosto é da Outra parte que quer ir sentar onde te vi e ficar esperando o dia que cê for passar de novo por lá pra refazer esse caminho que cê fez talvez pra ir comprar brócolis no mercado, pra daí quando cê passar 7 reais mais pobre depois da compra eu então poder te dizer que seu olho é lindo e que cê deixou a toalha molhada na cama daqui a 3 anos e que isso vai ter sido a gota d’água da gente mas que eu não me importo com isso não,

 

nem no hoje nem no amanhã porque de Passado essa vida tá cheia demais.

 

cê já me deu muita esquina.

 

mas pior ainda do que o a-gente-que-não-foi que eu tive com o moço do semáforo, são todos os a-gente-que-começaram a ser mas morreram depois por falta de adubo e cuidado.

 

a gente tem é que tomar cuidado pra não virar esquinas que não existiram, fazendo morrer assim a possibilidade de tanta coisa boa por mero descuido, descaso ou, pior ainda,

 

por medo do que pode ou não vir a ser,

 

sem conseguir aceitar o fato de que tudo

 

no Agora

 

já não é mais.

 

espelho negro

23 likes 2 shares 1 retweet 657 e-mails e 37 mensagens não lidas me jogam na cara que a vida é um ciclo e o cotidiano é um mar sem onda que nos carrega de plano em plano pra solidão que fica no fundo do poço da alma e nos atarefamos enchendo o inbox de conversas aparentemente não-aleatórias que só nos fazem fugir do medo da percepção de estarmos realmente sozinhos os pop-ups jamais permitem apreciar o sabor existente no gap entre você e o vento balançando a árvore nem o cheiro da matéria de stardust que nos cerca e então eu te pergunto até onde é que você tem medo ou é o medo que tem você e enfiamos um preenchimento de isopor no buraco mais pesado do mundo e a pior parte é que nos enganamos achando que isso vai ajudar mesmo em alguma outra coisa além de colorir o Ego de sangue e na história do Espelho Negro somos todos cisnes perdidos em meio a desencontros e desolhares semi-humanos soltos em cotidianos de iguais que cruzam na rua vendo 38 pessoas numa tela

mas Nenhuma
no (m)Olhar.