das que correm com os lobos

fui dormir cordeira e acordei loba.

gaia me chamou pelo útero, saindo do meu ventre e subindo pela vibração que vem da terra.

passei pelo olho do furacão e vi a deusa grande, uníssona, sorrindo pra mim.

ela veio pra me dizer que a terra chama meu ventre pra uivar com minhas irmãs nas noites de lua cheia.

precisamos fortalecer nossa alcateia porque as ameaças vêm de todos os cantos:

há séculos roubam, estupram, arrancam, estraçalham e vendem nossos corpos.

querem nossa carne, mente, nossa pele pendurada numa parede, que

o olho do lobo arranca com força, pedaço por pedaço.

suas patas machucam a história da fecundidade humana,

e se não fosse o bastante ainda apagam nossas pegadas no chão.

lobo-de-cadeia-solitária consegue nos confundir e fazer crer no que não é pra errarmos o caminho de casa.

desde filhotes crescemos acostumadas a ouvir latirem e rosnarem no nosso caminho e nos calamos,

no alto-gritar da noite.

estamos sempre observando todos os lobos que nos caçam e nos veem como um pedaço de carne ambulante,

e desse jeito adultamos aprendendo a cuidar dos próprios pelos, das patas, do próprio modo como andamos e corremos pela mata afora.

aprendemos a uivar juntas e de matilha a gente brinca com o mate-a-ilha.

reconhecemos de longe o cheiro de carniça e comendo a carne podre digerimos lentamente o ódio acumulado de todas as luas em que não pudemos uivar,

livres como nossa própria natureza clama ser.

olho no espelho e minhas marcas no colorido do olho refletem cada coisa pela qual já vi passar cada uma do bando.

não tem como ser loba sem deixar de ser só uma.

éramos cordeiras que juntas eram caçadas,

mas hoje eu senti uma vibração e nela uma voz transcendental mandou os lobos correrem de volta pras tocas.

algo aconteceu e nosso sangue que escorre de lembrança ancestral não será mais derramado em vão.

que saibamos revelar nossos instintos, botar as garras pra fora com essa força única geradora que vem da terra e nos põe a correr,

todas nós.

porque a partir de agora a nossa matilha não mais foge,

mas

sim

caça.

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ANCESTRAL

nada que os olhos veem realmente existe.

somos projeções cósmicas em realidades transcendentais e achamos estarmos presos nas caixinhas do corpo,

sendo que quem limita na verdade não é a carne, mas sim o olhar.

a certeza vem direto do Olho-que-tudo-vê e,

mesmo sem verdade, a gente enxerga e pior ainda que isso,

ainda que com suspiro,

estamos sempre sendo observados.

o universo é tudo-menos-uni e estamos conectados por redes de galácticas e cósmicas energias que ligam tudo a todos sem conseguir se saber o por quê.

Não

tem

por quê.

Existimos dentro da mente de uma Deusa e de lá ressoamos em contato com outras civilizações.

daí que os olhos enganam achando que cada encaixe não é nada além de holograma fundido em massa.

os pensamentos sao um turbilhão assim como o barulho das águas passando por dentre as pedras num rio, estando no meio delas fica mais fácil pensar porque o som abafa o som do dentro, sempre a lapidar as coisas brutas quase-que-inatas que existem em nós.

é só sentar na pedra pra então ver a raposa correndo contra a sua direção,

a mente como um canal para outras concretudes abstralizadas que desconhecemos.

eu olho a pedra e ela parece existir.
eu toco a pedra e ela passa a existir.
eu fecho os olhos e imagino a pedra, e eis que só então ela passa realmente a ser de fato, na sua existência de estar,

bem longe daquilo que meu olho ilude ver pra fugir dela, tão temida:

a morte.
ressoa em mim, tão forte.

morte,

que nada passa de um alívio não-consentido de todos nossos afazeres diários.

acabam as contas, as preocupações, as gaiolas onde o coração chora.

o vento vem dizer isso todos os dias e só resta sabermos lembrar sempre que

a natureza é um contato extremo com o dentro da gente –

o lugar de onde viemos,
pra onde vamos e de onde,
na verdade,
jamais saímos.