das coisas não-ditas

a gente espera pelo ônibus e enquanto isso cada palavra sua entra e some, se esvai dentro de mim e vai permear as dentrices que me dão vida,
e na lembrança do tudo-ou-nada que você me propõe
a gente fica assim sozinho com a porta semi-aberta sem saber a hora certa de chegar ou quem sabe sequer se
a porta
ainda vai existir
(porque as portas estão todas em mim).
tuas coisas-não-ditas ressoam em mim como fogo
e te rebato
as palavras que eu ia te dizer me preenchem
e vazam em outros alguéns
(deus é longe e o marasmo que habita em mim te grita)
mas ah, meu bem, se fosse tudo assim que nem você prega ser,
as cidades, as ruas, as vielas, e as donas de casa inclusive
andando pra lá e pra cá fazendo compras de supermercado sem nenhuma emoção,
se o mundo soubesse ao menos botar um pouquinho de sens(ação)
quem sabe eu até não voltaria pra você
e te diria sim
(mas o mundo não é bem assim)
e no fundo ninguém sabe de nada,
a gente só dança
e nesse nosso rodopiar eterno,
uma memória se faz.
vamos marcar um ponto do espaço sideral e curvar o manto da
grav
idade
sob a luz de nossos corpos flácidos e com o tempo, meu amor
as rugas vem
mas nao o ônibus
(não existem paradas pro coração que ama)
e me preencho de tudo que você não disse,
tudo que não fez,
pra então me fazer florescer sozinha,
úmida por minhas próprias vísceras
e nada mais.
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do anão que de pequeno não tem é nada

domingo é o dia que a semana escolhe pra ser silenciosa.

a cidade se emaranha em fios de ruas de novelos de dores e quando a gente se dá conta da existência desta complexidade toda,

dói.
e dói muito.

daí nessas horas vem morar no estômago da gente um anão verde que tapa a entrada da comida e fica brincando de pisar nas nossas vísceras.

uma a uma,
lentamente,

ele amassa nossos sonhos, utopias e devaneios.

e isso que ele faz não tem perdão porque balança, vai de um lado pro outro e não cessa.

cabe apenas à gente conseguir entender quê diabos esse anão veio fazer aqui e conseguir pegar ele com a mão (com cuidado, que o mais frágil é o que menos quebra) pra por de volta pro vento.

eu temo tudo aquilo que não sou e alterno por entre meio de minhas raízes brincando com meus diferentes estares.

as almas não envelhecem e o amor é a curiosidade pelo mundo do outro: são essas as duas únicas conclusões que eu consigo tirar disso tudo.

eu não sei de onde isso vem mas sei que está sempre lá,

perdido nos olhares das pessoas com quem cruzamos na rua, tão perdidas e tão à deriva como nós.

estamos à deriva,

sendo levados de um lado pro outro sabe-se-lá-pra-onde.

e não tem muito o que fazer, a não ser tentar aproveitar a viagem.

‘‘e aceitava o mistério de, com horror, amar ao Deus desconhecido’’.

a frase é da Clarice mas o pulsar é de todos nós