do anão que de pequeno não tem é nada

domingo é o dia que a semana escolhe pra ser silenciosa.

a cidade se emaranha em fios de ruas de novelos de dores e quando a gente se dá conta da existência desta complexidade toda,

dói.
e dói muito.

daí nessas horas vem morar no estômago da gente um anão verde que tapa a entrada da comida e fica brincando de pisar nas nossas vísceras.

uma a uma,
lentamente,

ele amassa nossos sonhos, utopias e devaneios.

e isso que ele faz não tem perdão porque balança, vai de um lado pro outro e não cessa.

cabe apenas à gente conseguir entender quê diabos esse anão veio fazer aqui e conseguir pegar ele com a mão (com cuidado, que o mais frágil é o que menos quebra) pra por de volta pro vento.

eu temo tudo aquilo que não sou e alterno por entre meio de minhas raízes brincando com meus diferentes estares.

as almas não envelhecem e o amor é a curiosidade pelo mundo do outro: são essas as duas únicas conclusões que eu consigo tirar disso tudo.

eu não sei de onde isso vem mas sei que está sempre lá,

perdido nos olhares das pessoas com quem cruzamos na rua, tão perdidas e tão à deriva como nós.

estamos à deriva,

sendo levados de um lado pro outro sabe-se-lá-pra-onde.

e não tem muito o que fazer, a não ser tentar aproveitar a viagem.

‘‘e aceitava o mistério de, com horror, amar ao Deus desconhecido’’.

a frase é da Clarice mas o pulsar é de todos nós

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