do wild ao into

wild hearts can’t be tamed, she said,

but we all know that your lion heart got emptied out at birth.

o negócio todo desse leve amarre que certas pessoas conseguem dar no coração da gente é que, pra quem tem o coração meio wild, pulante e eufórico que não gosta de ficar em gaiola, dá um medinho de quando dá pra ver ele começar a estar infincado.

ao mesmo tempo, o medo é de gostar da amarra de leve,

tipo uma mordida bem gostosa nas costas e então

quando o outro, que é pássaro que nem ti, quiser ir embora,

cê ficar na falta do quê morder.

a gente nessa vida se acha no controle das coisas quando o leme na verdade gira sozinho sem sequer percebermos.

criamos sonhos onde há espaços vazios

and I feel like

I’m

slowly

falling.

the problem is that I don’t really know what I’m falling for,

or where,

e nessa coisa toda de ir helmetless na vida dá um friozinho na barriga do caralho.

deve ser exatamente por isso que é tão bom.

um brinde a nós, the brave ones que pulam e se amarram e se desamarram e se vão, sempre com uma breve e leve consciência do passar das coisas.

nós somos
infinitos
estares.

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TEATRO

eu olhei pra ela e me apaixonei. mas na verdade não foi por ela de verdade- eu gostei foi do modo como os olhos se encaixavam naquela iluminação, a roupa rasgada, a cor da tinta na cara. ou seja: eu me encantei, de verdade, foi com a personagem dela. porque depois do fim do espetáculo, quando ela tava gente-que-nem-eu, de calça e jaqueta jeans, o cabelo semi-preso num coque, a cara dela era igual às das outras. igual à minha, inclusive. o desejo é uma coisa que surge dentro da gente quando existe um certo quê de mistério no outro e, nessa ânsia de querer conhecer o que há lá, chegamos ao extremismo do que nos é cabível de invadir e adentrar no outro. sentimos umas coisas coloridas-quente-vermelhas que vão passando pela carne, uma energia, um descontrole, e nessas horas viramos um misto selvagem entre o bicho e o bruto. e a atriz tem que ter em mente que, no palco, encarna energias diferentes de dentro dela e é preciso saber lidar com a responsabilidade dessa cativa toda. na cena da peça feminista, ela me falava de mulher loba, de um certo quê selvagem, um místico do feminino quase que difícil de reconhecer em mim. a loba, pra mim, era só ela. a moça me olhava de baixo pra cima com um ar misterioso de quem tinha encontrado um segredo e queria me dar, seus olhos carregavam as palavras não-ditas do Agora e, quando eu vi, eu estava indo também. mas não tava sendo levada, arrastada por ela, não. alguma coisa sem-nome entrou em mim e eu simplesmente fui, enquanto de longe ela voltava pro camarim onde já residia a minha saudade do instante que se foi.

A VOZ DO METRÔ QUE FALA: PRÓXIMA ESTAÇÃO … LIBERDADE

 

gustavo tinha 12 e rondava a pinheiros, que de floresta na verdade tinha só a pedra.

 

me viu sentada e, olhando pro chão, pediu.

 

paguei o tal do monster dog pra ele, dividido cautelosamente em três pra levar pra mãe e pro irmão também.

 

até tentei estabelecer um diálogo, você trabalha, gosta da escola, fica sempre por aqui, a galera costuma te pagar lanche mesmo,

 

mas gustavo não tinha coragem nem de me olhar no olho.

 

tá com medo de mim, é? não tá nem olhando na minha cara…

 

silêncio.

 

fico pensando se, no auge dos seus 12, ele já acostumou tanto a ser tratado que nem bicho que quando alguém olha no seu espelho da alma, ele só consegue achar estranho ou errado.

 

ou, ainda, se aprendeu tanto a não confiar em gente com a pele pálida que nem a minha, que acha normal a interação ser somente por piedade ou submissão.

 

não sei.

 

o passado existente entre mim e gustavo é de muito mais que alguns anos,

 

e ele sabe disso muito bem.

 

além disso tem o fato de que seus olhos tavam era vidrados no tal do monster dog.

 

double salsicha, maionese, ketchup. várias palavras gringas, e eu

 

fico pensando se ele sabe o que significa um diacho de um monster dog.

 

gustavo saiu andando subindo a calça pra levar o lanche pra mãe e pro irmão.

 

eles estavam na Luz.

 

mas Luz de verdade foi a última coisa que eu acho que eles encontraram naquele dia.

 

chronos

andava na rua e esbarrei na velha. esbarrei não de físico,

 

foi alma.

 

ela andava lento, sempre ajudada pela por-mim-suposta filha, segurando seu braço com firmeza e carinho ao mesmo tempo.

 

dava pra ver escrito nos dedos da filha as marcas que a própria velha fez um dia, quando a ensinou ainda bebêzinha a andar e pegava no seu braço assim de leve, do mesmo jeito como ela mesma fazia agora.

 

inverteram os papéis.

 

a velha tinha a voz rouca, uma voz cheia de rugas e marcas que quando ecoava no ar dava pra perceber que já tinha dançado em muito ar por aí.

 

eu fico imaginando se quando os velhos pensam nas pessoas amadas, eles pensam no enrugado que dorme na cama do seu lado há 37 anos ou se imaginam a pessoa do jeito que ela era quando eram mais novos.

 

como serão os sonhos dos velhos?

 

se prendem no passado, ou será que tentam ancorar alguma coisa de futuro ?

 

será que sonho de velho respira que nem os nossos?

 

olho pra minha pele e ela é macia. lisa. não tem ruga nem marca sem ser numa gaiolinha dentro do meu peito que segura um treco selvagem que não sei botar nome não.

 

cor(ação) da gente é sempre wild, passando e viajando por meio de florestas úmidas dentro do peito dos outros.

 

a vida é essa viagem toda.

 

meus movimentos são rápidos, ágeis, bate vento no meu cabelo e ele voa. tudo em mim é leve e agitado,

 

mas não na velha. o tempo nela já passou tanto que foi tirando de dentro dela os minutos,

 

e é por isso que os velhos tem essa lentidão toda.

 

porque quando a gente nasce somos cheios de minutos guardados dentro da gente, um estoque de tempo que conforme vai correndo vai desgastando nossas células e, quando a gente vê,

 

tá andando lento por aí na rua.

talvez até pensando lento.

 

e daí devagarzinho as coisas internas vão diminuindo, bem de leve,

 

os minutos passando de dentro da gente de volta pra terra até chegar a hora de nascer de novo,

 

ser plantado na terra
e virar então flor marcada no chronos da história de tudo aquilo que a gente não consegue entender direito.

tradicional

Você viu aquele restaurante novo que abriu no centro? Tem área kids. É ótimo mesmo né, a gente consegue conversar em paz. Desce daí, menino, senão a mamãe fica triste hein? Nossa, essa casa depois que pintaram ficou muito estranha, preferia aquele verde de antes. O povo não tem noção né. Aoba, tudo bão seu Jorge? Coitado, esse aí sofre com a esposa. Psicose, sei lá, sei que é doidinha a mulher dele. Come mesmo, menina, aproveita que você é jovem, que quando fica velho só cresce pros lados. Você pode. Você tá muito magra. Você andou engordando, né? Esse mercadinho do japonês expandiu que é uma beleza, hoje em dia tem de tudo, compensa às vezes mais que mercado. Graças a Deus. E esse tempo hein? Será que chove? Tava precisando hein, dar uma abaixada na poeira. Semana passada fez um frio desgraçado mas agora tá fresquinho gostoso. Bom pra dormir. Eita que hoje foi puxado hein, lavei todo o quintal, tô acabado. Exausto. Nossa, são sete horas já? É, benzinho, o jeito é sentar ver TV e depois ir dormir hein, senão… aproveitar que amanhã a gente pode dormir mais um pouquinho. A gente trabalha a semana inteira, merece descansar um pouco. Pega uma cervejinha pra mim. Vou aproveitar o domingão pra passar umas roupas. Depois tem que ainda ir na casa da minha mãe e quando viu já acabou o domingo também. Porque quando eu aposentar, nossa, não vejo a hora, quero deitar, ler meus livros, viajar. Ficar na paz, sabe? Nossa, esse grupo do whats aqui não pára. Só tontice, cada vídeo besta. Cê viu esse aqui do gatinho? kkkkk um sarro. Ah, e cê viu que a Renata tá namorando um moço novo agora? Vi no feice. É, é isso aí né, o João ficou pra trás… faz parte. Logo deve casar essa aí também. Dia desses a Juliana casou, é isso aí a vida mesmo. E a gente ficando pra trás. Normal. Só não me apareça aqui com namorado desses chocolate hein, kkkkk… é brincadeira menina, não me olha assim. Vai saber hein, as branquinhas assim que nem você costumam gostar. Pra que me xingar assim? Você não tem senso de humor. Fazia tempo que eu não te via, você quase nunca volta pra cá né? É que você é mulher do mundo. Quer dizer, nossa, desculpa, não foi isso que eu quis dizer, só que você é do mundo. Imagina mesmo, credo. Fiz um bolinho. Quer um café? E que que é o fim desse calor hein!? Só por Deus mesmo. Ai ai, só canseira né? E esse governo? Agora diz que vai melhorar as coisas. Mas o tomate no mercado tá um absurdo ainda, não sei o que é o fim disso. Mas tá bom, a gente vive nessa correria danada mas graças a Deus nunca falta nada pra gente. A vida é assim mesmo, tem que trabalhar duro, não tem jeito. Mas e aí hein, será que chove?

azul de (a)mar

tem dia que a gente acorda azul.

 

com vontade de ouvir música lenta pra tentar acalmar a alma,

 

o sorriso que foge da gente porque quando a alma fica azul é porque a gente conseguiu entender várias coisas da vida.

 

e é claro que isso deixa triste,

 

depois disso inventamos de chamar as coisas de amor e queremos sentir que somos únicos e especiais.

 

pois saiba, meu amor, que não sou tua muito menos amo.

 

nos iludimos do contrário pra preencher um pouco todo esse void que carregamos,

 

mas na verdade tem tanta coisa por aí que a gente inventa nome bonito pra no fundo sermos apenas existência igual uma grama.

 

o sorriso é um treco que vem das coisas que não sabemos explicar,

 

tipo piada, o humor surge da quebra de sentido e lógica das coisas e quando a gente não sabe, só pode é rir pra disfarçar.

 

outra coisa que não explica mas dá nome é sentimento,

 

aquele quando se olha prum alguém e se sente tanta coisa a percorrer nas veias que já não se sabe mais o que é aquilo e daí é só

rir

nova(mente).

 

sorrisos são azuis.

 

E nessas horas em que o universo do Dentro vira mar em tempestade, não resta nada a fazer além de aprender a nadar.

 

nessa vida de loucos a gente tem que saber ser sereia:

 

se

ser,

serei

      ar.

e rir

(a esta morna rebeldia).

 

apartamento

sons vindo do vizinho.

 

raios de sol batendo nos móveis.

 

uma leve brisa entrando pela sacada.

 

precisamos aprender a saborear de leve as cores que invadem cada canto dos apartamentos apertados onde vivemos,

 

empilhados uns sob os outros feitos corpos em gavetas de cemitério mas

 

(in)felizmente a gente ainda não tem morte não,

 

temos é apartamentos e neles nos aconchegamos após dias longos de trabalho,

 

a gente chega cansado e liga a tv dizendo que hoje o dia foi puxado e merecemos uma cervejinha.

 

cada

canto

 

de uma dessas caixinhas de fósforo guarda um segredo.

 

o espelho que angula exatamente para se ver do outro lado da casa,

o tapete macio do banheiro que te recebe quente e acalorado do banho,

a espuma da banheira numa sensação quase-que-infantil que parece estar saindo de uma cena de filme onde

 

os protagonistas

somos

nós.

 

o formato da luz amarelada do amanhecer atravessando as cortinas,

 

a vista preto e branco dos prédios ao lado, tão perfeita e detalhada que parece que deus inventou hoje de querer bancar o realista e desenhou aquilo pra gente ficar olhando e pensando na própria vida.

 

perdemos a nossa mente ao encarar essa vastidão,

 

somos engolidos pela maestria do grande e é por isso que precisamos aprender a saber apreciar,

 

bem devagar,

 

os pequenos detalhes do lugar onde vivemos.

 

tem gente que chamaria isso de carpe diem,

 

felicidade, whatever.

 

eu não gosto de rotular não.

 

o rótulo tira todo o gosto do mistério e da criatividade da gente, e se for pra existir rotulado

 

pode deixar que eu espero o momento de me tirarem dessa caixinha de agora pra me colocarem naquela outra onde parentes me trarão flores no II de novembro,

 

procurando meu nome em meio a tantas etiquetas de quem um dia existiu

 

em pedaços pequenos da terra

 

que um dia chamamos de lar.

 

dia dos namorados

caminhamos em shoppings de mãos dadas com pessoas que acreditamos ser predestinadas pra gente pra alguma coisa.

 

o problema é que pra essa alguma coisa a gente costuma dar uma atribuição positiva,

 

a gente dá uma sensação de tilintar de dedos nas costas e

 

construímos uma idealização doentia que inventa um modo de apego e dependência em relacionamentos quase que vinculado a uma linha de produção,

 

vão caindo broken hearts da esteira da aleatoriedade dos eventos da vida,

 

lenta

     a

     mente,

 

um a um.

 

eu tenho vontade de olhar fundo no olho das pessoas e agradecer pela leve brisa que cada uma traz naquele instante da minha vida, afinal no fundo nós apenas

 

somos

instantes.

 

nos ensinam a amar de um jeito que dói.

 

intoxicam um dos sentimentos mais puros que surgem no peito da gente com julgamentos, moralizações, medos e dores,

 

e eu fico pensando quem é que foi que inventou essa história de sofrer quando se sente uma coisa tão boa ardendo no peito,

 

fazendo sentir vivo quem antes vivia na inércia comparável à de uma almofada.

 

vivemos em uma sociedade

 

                                  love-a-holic

 

em que os loves se confundem com os holes e

 

da maquiagem fazemos crescer risos que ecoam pelos muros de cidades vazias.

 

mas acho que,

no fundo,

 

o vazio é sempre nosso anyway.

A Fila

(baseado em fatos reais.)

   O mundo pode muito bem ser dividido entre pessoas de direita, de esquerda, que sobem degraus de 2 em 2 ou a todo um resto de uma miríade de dicotomias. Mas existe um único lugar onde reina a paz mundial, onde há consenso sobre a liberdade de expressão e existe sinceridade em cada palavra dita sobre esta terra em que pisamos: a fila do banheiro feminino.

   Nestes recantos gregos onde feminazis e evangélicas (todas, geralmente, bêbadas) dividem espaços apertados entre cabines gorfadas e espelhos do tamanho de um retrovisor para retocarem o batom, cenas à parte de toda a realidade do resto do mundo acontecem. É comum que se instaure uma intimidade repentina entre você e sua colega ao lado quando ela, de repente, sem introduções nem lero-leros, se dirige a você com um belo sabe porque eu não gosto do cristianismo? Tem DOZE apóstolos, e nenhum me contempla!! Nenhum fala alguma coisa que eu noooooossa vdd minha vida é isso aí

   Até mesmo filas aparentemente comunais, silenciosas, típicas do caixa preferencial de um banco podem de repente retornar ao seu status quo com um repentino AI MIGAS, tá muito silencio aqui!!! COMO FAZ QUANDO ENCONTRA O EX???… Pronto. Eis que se inicia um verdadeiro debate diplomático de dar inveja a qualquer ONU da vida. Menina, encontra alguém pra dar um beijo na boca!1! adooooro… e então novas integrantes se soltam: (sussurando e encarando de olhos arregalados um ponto fixo na parede) a vida… é uma verdadeira compilação… de TOMADAS NO CU ou então, de dentro da cabine, se ouve uma (in)feliz cantando alegremente Beyoncé. E um verdadeiro coro se inicia.

   Homens acharão exagero, mentira, até mesmo conspiração feminista pra incitar sororidade- mas creiam, machos: isso existe mesmo. Um lugar do mundo onde o ódio, o egoísmo e o andar isolado de cada um preso a uma tela de celular dá lugar a estranhas se ajudando a ajeitar a roupa (ai miga prende aqui pra mim BEM FORTE MESMO pra segura essas porra aqui, isso brigada… vai que eu seguro a porta e você ve se ta transparente pra mim, vai).

Ao inferno os papos sobre o calor, o futebol e todos os assuntos rotineiros que rondam as conversas-tipo-de-elevador em todos os âmbitos de nossa vida: o mundo precisa é da estatização das filas de banheiro feminino. Precisamos da universalização da sinceridade e da empatização com x coleguinhx- afinal, no fim das contas, estamos todos nós juntos aguardando chegar nada além da nossa vez também.

 

fotografia

fotografia pode ser um par de olhos.

uma flor.

o concreto.

ou qualquer coisa porque,

 

no fundo, ela acontece naquele flash de quando você olha pra algo e parece ser a primeira vez que tá vendo aquilo,

 

mesmo já tendo visto por até, quem sabe,

 

toda uma vida.

 

é a eternização do olhar sobre uma emoção tão pequenina,

 

tão leve,

 

naquele instante exato da dobradura da manta da gravidade nessa coisa tão infinitesimal:

 

o tempo sendo marcado por tanta delicadeza de sopro vital.

 

(e deve ser por isso então que os técnicos chamam de

 

fotografia

           instantânea).