MAKTUB (ou ainda: semi-soneto para a happenstance)

João gostava de Paulo que gostava de Maria que nunca leu Drummond e viajou prum mochilão pra Armênia em 2007 e na feira comprando damascos conheceu um senhor de 57 que a abrigou em casa e lá tinha a empregada Suzanne por quem se apaixonou e elas abriram uma loja de vidrarias e depois de 7 anos e 3 meses e 16 dias após mais uma briga por causa do cachorro que é seu mas eu que sempre acabo cuidando de tudo se separaram e Maria voltou pro Brasil mas nessa altura Paulo tinha se casado com um norueguês vegano praticante de yoga e João morreu atropelado num acidente na BR101 e Maria hoje mora num apartamento em Perdizes e celebra a aleatoriedade da vida e o fato de não termos controle sobre nada do que se passa sobre esta terra e às terças feiras ela vai na natação onde tem uma moça muito bonita mas sua aula acaba 15 minutos antes da dela o que a impede de puxar um assunto mas na verdade lá no fundo Maria sabe que o impedimento

Nunca é

de Tempo não.

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trevo

sentimentos são a moldabilidade que temos de nos adaptar diferentemente a cada pessoa e situação que enfrentamos nessa vida, tem gente que desperta uma sensação nostálgica de querer viver de novo tudo que já se viveu mas ao mesmo tempo de um jeito tão diferente no agora, existem lampejos de intimidade que surgem no meio de conversas aleatórias comunais quando por exemplo a pessoa vira e diz “eu já tinha visto essa sua blusa?” mostrando não só interesse mas ainda o sentimento de participação quase-que-contínua na vida de alguém.

 

cada pedaço do outro é uma nova sensação que a gente nunca-já sentiu e parece que quando a gente tá com certos alguéns

 

se abre

 

uma cratera

no manto espaço-tempo

 

e tudo que antes era palavra vira então cores, suspiros e sensações que nunca jamais ser humano algum vai conseguir transformar em palavras.

 

e quando a gente tenta

só perde textura

então o melhor é ficar em silêncio mesmo.

 

felizes são as paredes,

 

que veem frias tudo se desenrolar ironicamente e sabem bem que

 

atração não é (só) físico,

 

é alguma coisa que ficaria legal te preenchendo ou até mesmo um certo jeito de pensar que por algum motivo achamos interessante porque nos reconhecemos um pouco ali na própria existência do Outro.

 

visitar a casa de alguém, por exemplo, é adentrar profundo nos seus sonhos e memórias, as paredes são sempre recheadas de lembranças mesmo quando são só brancas.

 

é preciso saber ficar bem quieta, calma, observando a outra pessoa ali existindo em seu próprio habitat natural.

 

tem gente que mesmo sem saber acaba nos estimulando a ser mais nós mesmos, nos preenchem de ar pra gente conseguir sair flutuando pra onde quiser ir e

 

nesses momentos em que alguém nos (pre)enche, é preciso saber dançar no silêncio e pegar com as mãos os cheiros diluídos no ar.

 

latas vazias de cerveja, quadros vindos de lugares distantes e um certo extra-terrismo que nos pede pra observar fotos em paredes e sorrir leve com o gosto de quem não viveu nada daquilo mas fica feliz por compartilhar o saber de que isso já aconteceu um dia, nalgum lugar, com algumas pessoas, num de infinitos pontos que somos nesse mundão universal.

 

e quando eu falo de universo, não me refiro ao Uni (Verso) que é música de vários versos não.

 

falo é do Dentro da gente, porque cada pessoa é um universo a vaguear em espaçonaves próprias de pele e osso.

 

quando a gente acha que só existe uma única singularidade, um único embate planeta-estrelas percebe então que quase tudo pode ser ou vir a ser,

 

com o cuidado direito tudo pode ser amor igual, só precisa saber aguar e pôr no sol as coisas de dentro do peito direitinho pra não mofar.

 

e tem dia também que tem que saber dar um tempo pra tempestade interna conseguir chover,

 

porque sem arte a gente se desfarte no meio da loucura de toda uma multidão de normalidade.

 

tem quem chame isso de sorte.
eu só chamo de respiro mesmo.

do wild ao into

wild hearts can’t be tamed, she said,

but we all know that your lion heart got emptied out at birth.

o negócio todo desse leve amarre que certas pessoas conseguem dar no coração da gente é que, pra quem tem o coração meio wild, pulante e eufórico que não gosta de ficar em gaiola, dá um medinho de quando dá pra ver ele começar a estar infincado.

ao mesmo tempo, o medo é de gostar da amarra de leve,

tipo uma mordida bem gostosa nas costas e então

quando o outro, que é pássaro que nem ti, quiser ir embora,

cê ficar na falta do quê morder.

a gente nessa vida se acha no controle das coisas quando o leme na verdade gira sozinho sem sequer percebermos.

criamos sonhos onde há espaços vazios

and I feel like

I’m

slowly

falling.

the problem is that I don’t really know what I’m falling for,

or where,

e nessa coisa toda de ir helmetless na vida dá um friozinho na barriga do caralho.

deve ser exatamente por isso que é tão bom.

um brinde a nós, the brave ones que pulam e se amarram e se desamarram e se vão, sempre com uma breve e leve consciência do passar das coisas.

nós somos
infinitos
estares.

TEATRO

eu olhei pra ela e me apaixonei. mas na verdade não foi por ela de verdade- eu gostei foi do modo como os olhos se encaixavam naquela iluminação, a roupa rasgada, a cor da tinta na cara. ou seja: eu me encantei, de verdade, foi com a personagem dela. porque depois do fim do espetáculo, quando ela tava gente-que-nem-eu, de calça e jaqueta jeans, o cabelo semi-preso num coque, a cara dela era igual às das outras. igual à minha, inclusive. o desejo é uma coisa que surge dentro da gente quando existe um certo quê de mistério no outro e, nessa ânsia de querer conhecer o que há lá, chegamos ao extremismo do que nos é cabível de invadir e adentrar no outro. sentimos umas coisas coloridas-quente-vermelhas que vão passando pela carne, uma energia, um descontrole, e nessas horas viramos um misto selvagem entre o bicho e o bruto. e a atriz tem que ter em mente que, no palco, encarna energias diferentes de dentro dela e é preciso saber lidar com a responsabilidade dessa cativa toda. na cena da peça feminista, ela me falava de mulher loba, de um certo quê selvagem, um místico do feminino quase que difícil de reconhecer em mim. a loba, pra mim, era só ela. a moça me olhava de baixo pra cima com um ar misterioso de quem tinha encontrado um segredo e queria me dar, seus olhos carregavam as palavras não-ditas do Agora e, quando eu vi, eu estava indo também. mas não tava sendo levada, arrastada por ela, não. alguma coisa sem-nome entrou em mim e eu simplesmente fui, enquanto de longe ela voltava pro camarim onde já residia a minha saudade do instante que se foi.

A VOZ DO METRÔ QUE FALA: PRÓXIMA ESTAÇÃO … LIBERDADE

 

gustavo tinha 12 e rondava a pinheiros, que de floresta na verdade tinha só a pedra.

 

me viu sentada e, olhando pro chão, pediu.

 

paguei o tal do monster dog pra ele, dividido cautelosamente em três pra levar pra mãe e pro irmão também.

 

até tentei estabelecer um diálogo, você trabalha, gosta da escola, fica sempre por aqui, a galera costuma te pagar lanche mesmo,

 

mas gustavo não tinha coragem nem de me olhar no olho.

 

tá com medo de mim, é? não tá nem olhando na minha cara…

 

silêncio.

 

fico pensando se, no auge dos seus 12, ele já acostumou tanto a ser tratado que nem bicho que quando alguém olha no seu espelho da alma, ele só consegue achar estranho ou errado.

 

ou, ainda, se aprendeu tanto a não confiar em gente com a pele pálida que nem a minha, que acha normal a interação ser somente por piedade ou submissão.

 

não sei.

 

o passado existente entre mim e gustavo é de muito mais que alguns anos,

 

e ele sabe disso muito bem.

 

além disso tem o fato de que seus olhos tavam era vidrados no tal do monster dog.

 

double salsicha, maionese, ketchup. várias palavras gringas, e eu

 

fico pensando se ele sabe o que significa um diacho de um monster dog.

 

gustavo saiu andando subindo a calça pra levar o lanche pra mãe e pro irmão.

 

eles estavam na Luz.

 

mas Luz de verdade foi a última coisa que eu acho que eles encontraram naquele dia.

 

chronos

andava na rua e esbarrei na velha. esbarrei não de físico,

 

foi alma.

 

ela andava lento, sempre ajudada pela por-mim-suposta filha, segurando seu braço com firmeza e carinho ao mesmo tempo.

 

dava pra ver escrito nos dedos da filha as marcas que a própria velha fez um dia, quando a ensinou ainda bebêzinha a andar e pegava no seu braço assim de leve, do mesmo jeito como ela mesma fazia agora.

 

inverteram os papéis.

 

a velha tinha a voz rouca, uma voz cheia de rugas e marcas que quando ecoava no ar dava pra perceber que já tinha dançado em muito ar por aí.

 

eu fico imaginando se quando os velhos pensam nas pessoas amadas, eles pensam no enrugado que dorme na cama do seu lado há 37 anos ou se imaginam a pessoa do jeito que ela era quando eram mais novos.

 

como serão os sonhos dos velhos?

 

se prendem no passado, ou será que tentam ancorar alguma coisa de futuro ?

 

será que sonho de velho respira que nem os nossos?

 

olho pra minha pele e ela é macia. lisa. não tem ruga nem marca sem ser numa gaiolinha dentro do meu peito que segura um treco selvagem que não sei botar nome não.

 

cor(ação) da gente é sempre wild, passando e viajando por meio de florestas úmidas dentro do peito dos outros.

 

a vida é essa viagem toda.

 

meus movimentos são rápidos, ágeis, bate vento no meu cabelo e ele voa. tudo em mim é leve e agitado,

 

mas não na velha. o tempo nela já passou tanto que foi tirando de dentro dela os minutos,

 

e é por isso que os velhos tem essa lentidão toda.

 

porque quando a gente nasce somos cheios de minutos guardados dentro da gente, um estoque de tempo que conforme vai correndo vai desgastando nossas células e, quando a gente vê,

 

tá andando lento por aí na rua.

talvez até pensando lento.

 

e daí devagarzinho as coisas internas vão diminuindo, bem de leve,

 

os minutos passando de dentro da gente de volta pra terra até chegar a hora de nascer de novo,

 

ser plantado na terra
e virar então flor marcada no chronos da história de tudo aquilo que a gente não consegue entender direito.

tradicional

Você viu aquele restaurante novo que abriu no centro? Tem área kids. É ótimo mesmo né, a gente consegue conversar em paz. Desce daí, menino, senão a mamãe fica triste hein? Nossa, essa casa depois que pintaram ficou muito estranha, preferia aquele verde de antes. O povo não tem noção né. Aoba, tudo bão seu Jorge? Coitado, esse aí sofre com a esposa. Psicose, sei lá, sei que é doidinha a mulher dele. Come mesmo, menina, aproveita que você é jovem, que quando fica velho só cresce pros lados. Você pode. Você tá muito magra. Você andou engordando, né? Esse mercadinho do japonês expandiu que é uma beleza, hoje em dia tem de tudo, compensa às vezes mais que mercado. Graças a Deus. E esse tempo hein? Será que chove? Tava precisando hein, dar uma abaixada na poeira. Semana passada fez um frio desgraçado mas agora tá fresquinho gostoso. Bom pra dormir. Eita que hoje foi puxado hein, lavei todo o quintal, tô acabado. Exausto. Nossa, são sete horas já? É, benzinho, o jeito é sentar ver TV e depois ir dormir hein, senão… aproveitar que amanhã a gente pode dormir mais um pouquinho. A gente trabalha a semana inteira, merece descansar um pouco. Pega uma cervejinha pra mim. Vou aproveitar o domingão pra passar umas roupas. Depois tem que ainda ir na casa da minha mãe e quando viu já acabou o domingo também. Porque quando eu aposentar, nossa, não vejo a hora, quero deitar, ler meus livros, viajar. Ficar na paz, sabe? Nossa, esse grupo do whats aqui não pára. Só tontice, cada vídeo besta. Cê viu esse aqui do gatinho? kkkkk um sarro. Ah, e cê viu que a Renata tá namorando um moço novo agora? Vi no feice. É, é isso aí né, o João ficou pra trás… faz parte. Logo deve casar essa aí também. Dia desses a Juliana casou, é isso aí a vida mesmo. E a gente ficando pra trás. Normal. Só não me apareça aqui com namorado desses chocolate hein, kkkkk… é brincadeira menina, não me olha assim. Vai saber hein, as branquinhas assim que nem você costumam gostar. Pra que me xingar assim? Você não tem senso de humor. Fazia tempo que eu não te via, você quase nunca volta pra cá né? É que você é mulher do mundo. Quer dizer, nossa, desculpa, não foi isso que eu quis dizer, só que você é do mundo. Imagina mesmo, credo. Fiz um bolinho. Quer um café? E que que é o fim desse calor hein!? Só por Deus mesmo. Ai ai, só canseira né? E esse governo? Agora diz que vai melhorar as coisas. Mas o tomate no mercado tá um absurdo ainda, não sei o que é o fim disso. Mas tá bom, a gente vive nessa correria danada mas graças a Deus nunca falta nada pra gente. A vida é assim mesmo, tem que trabalhar duro, não tem jeito. Mas e aí hein, será que chove?

azul de (a)mar

tem dia que a gente acorda azul.

 

com vontade de ouvir música lenta pra tentar acalmar a alma,

 

o sorriso que foge da gente porque quando a alma fica azul é porque a gente conseguiu entender várias coisas da vida.

 

e é claro que isso deixa triste,

 

depois disso inventamos de chamar as coisas de amor e queremos sentir que somos únicos e especiais.

 

pois saiba, meu amor, que não sou tua muito menos amo.

 

nos iludimos do contrário pra preencher um pouco todo esse void que carregamos,

 

mas na verdade tem tanta coisa por aí que a gente inventa nome bonito pra no fundo sermos apenas existência igual uma grama.

 

o sorriso é um treco que vem das coisas que não sabemos explicar,

 

tipo piada, o humor surge da quebra de sentido e lógica das coisas e quando a gente não sabe, só pode é rir pra disfarçar.

 

outra coisa que não explica mas dá nome é sentimento,

 

aquele quando se olha prum alguém e se sente tanta coisa a percorrer nas veias que já não se sabe mais o que é aquilo e daí é só

rir

nova(mente).

 

sorrisos são azuis.

 

E nessas horas em que o universo do Dentro vira mar em tempestade, não resta nada a fazer além de aprender a nadar.

 

nessa vida de loucos a gente tem que saber ser sereia:

 

se

ser,

serei

      ar.

e rir

(a esta morna rebeldia).

 

apartamento

sons vindo do vizinho.

 

raios de sol batendo nos móveis.

 

uma leve brisa entrando pela sacada.

 

precisamos aprender a saborear de leve as cores que invadem cada canto dos apartamentos apertados onde vivemos,

 

empilhados uns sob os outros feitos corpos em gavetas de cemitério mas

 

(in)felizmente a gente ainda não tem morte não,

 

temos é apartamentos e neles nos aconchegamos após dias longos de trabalho,

 

a gente chega cansado e liga a tv dizendo que hoje o dia foi puxado e merecemos uma cervejinha.

 

cada

canto

 

de uma dessas caixinhas de fósforo guarda um segredo.

 

o espelho que angula exatamente para se ver do outro lado da casa,

o tapete macio do banheiro que te recebe quente e acalorado do banho,

a espuma da banheira numa sensação quase-que-infantil que parece estar saindo de uma cena de filme onde

 

os protagonistas

somos

nós.

 

o formato da luz amarelada do amanhecer atravessando as cortinas,

 

a vista preto e branco dos prédios ao lado, tão perfeita e detalhada que parece que deus inventou hoje de querer bancar o realista e desenhou aquilo pra gente ficar olhando e pensando na própria vida.

 

perdemos a nossa mente ao encarar essa vastidão,

 

somos engolidos pela maestria do grande e é por isso que precisamos aprender a saber apreciar,

 

bem devagar,

 

os pequenos detalhes do lugar onde vivemos.

 

tem gente que chamaria isso de carpe diem,

 

felicidade, whatever.

 

eu não gosto de rotular não.

 

o rótulo tira todo o gosto do mistério e da criatividade da gente, e se for pra existir rotulado

 

pode deixar que eu espero o momento de me tirarem dessa caixinha de agora pra me colocarem naquela outra onde parentes me trarão flores no II de novembro,

 

procurando meu nome em meio a tantas etiquetas de quem um dia existiu

 

em pedaços pequenos da terra

 

que um dia chamamos de lar.

 

dia dos namorados

caminhamos em shoppings de mãos dadas com pessoas que acreditamos ser predestinadas pra gente pra alguma coisa.

 

o problema é que pra essa alguma coisa a gente costuma dar uma atribuição positiva,

 

a gente dá uma sensação de tilintar de dedos nas costas e

 

construímos uma idealização doentia que inventa um modo de apego e dependência em relacionamentos quase que vinculado a uma linha de produção,

 

vão caindo broken hearts da esteira da aleatoriedade dos eventos da vida,

 

lenta

     a

     mente,

 

um a um.

 

eu tenho vontade de olhar fundo no olho das pessoas e agradecer pela leve brisa que cada uma traz naquele instante da minha vida, afinal no fundo nós apenas

 

somos

instantes.

 

nos ensinam a amar de um jeito que dói.

 

intoxicam um dos sentimentos mais puros que surgem no peito da gente com julgamentos, moralizações, medos e dores,

 

e eu fico pensando quem é que foi que inventou essa história de sofrer quando se sente uma coisa tão boa ardendo no peito,

 

fazendo sentir vivo quem antes vivia na inércia comparável à de uma almofada.

 

vivemos em uma sociedade

 

                                  love-a-holic

 

em que os loves se confundem com os holes e

 

da maquiagem fazemos crescer risos que ecoam pelos muros de cidades vazias.

 

mas acho que,

no fundo,

 

o vazio é sempre nosso anyway.